10 de junho de 2011

Se eu fechar os olhos agora

Se eu fechar os olhos agora, posso sentir teu gosto se esticando em minha boca. Cada parte do seu corpo em harmonia com o meu. Posso lembrar dos teus traços com perfeição, colados estavam os nossos rostos. Posso falar tua língua, despender no espaço a distância que nos separa.
Se eu fechar os olhos agora, sinto seu cheiro, sinto sua vontade e palpitação. Posso acolher tuas lembranças como velhas amigas, que me consolam em vão.
De olhos fechados, lembro de um parque, de um banco e de um colo. Daquela antiga e deliciosa sensação de que não havia mais nada além de nós.
Se eu fechar os olhos agora ainda consigo te tocar, num ínfimo pensamento guardado no fundo da cabeça. Tenho condições, de olhos fechados, de sentar-me ao teu lado e saborear o teu tempo.
È como um átimo, rápido e pausado. Uma fita antiga de cinema mudo. Imagens se contextualizam sem cores, se projetam em meus olhos como se projetam também antigos amores.
Se eu fechar os olhos agora canto uma canção, ainda que para dentro. Ainda que para ninguém. Paro de respirar, e de suspirar. Interiorizo-me.
Como quando se interpreta um papel, vão se entendendo as diversas formas que fomos, os diversos seres que deixamos de ser. E uma palavra antiga se faz, e a cidade inteira se cala. Não se espera mais, nem se cansa mais.
Se eu fechar os olhos agora, me sinto novamente amado, desejado e em larga escala. Lembro do teu levantar e me abraçar, dos teus copos de conhaque e de um requintado bar.
È na, verdade, tudo um erro de memória. Não se fazem mais humanos como antigamente. Porque, senão, fitando o escuro encontraria também teus desajeitados erros, e tua fala manhosa. Nesse breu de pensamento, deveriam vir a tona meus desejos ocultos, e minhas mãos tremendo. Mas vem teu queixo, dividido ao meio. Tua boca, tão morna e tão úmida.
E ainda que não persistam aqueles anseios remotos, de um tempo já não mais alcançável. E tendo o tempo a meu favor, maior diluidor de sofrimentos. E sem que te veja, te sinta ou sequer que te deseje. Embora tudo isso insista em manter longe aquilo que tive tão perto, se eu fechar os olhos agora, lembro de você.


Felipe, de olhos fechados...

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