3 de agosto de 2011

A gente sabe como é.

O rapaz segurava as mãos da menina como quem acalenta um moribundo em seu leito. Ele, cabelo curto, óculos quadrado, pele branca, quase pálida. Ela, morena tingida, de olhos fechados e rosto sereno.
Não pensei no que se passava a princípio. Não se atenta ao cotidiano invisível. Coisas se passam ao nosso redor como que sem valor, sem sentimento.
Mas ouvi o sussurro do rapaz, quase inaudível no banco do ônibus, atrás de mim:
-Não lhe quis mal, entenda. Nunca pretendi te deixar.
Ele a deixava.
Imaginei como estaria aquele músculo em seu peito, que às vezes não me lembro se chamar coração. Deveria bater, gritar, se desprender no ar em palpitação. Pois, para ele (a certeza era cega) um alívio se misturava ao remorso em doses homeopáticas. Sabemos que é assim. Segurar mãos indesejadas, sentir um corpo não apaixonado, é como veneno à alma.
Ela parecia sofrer, no entanto. Ela não devia desejar o fim como o rapaz desejava. Sua feição era de perda. Cara de quem comeu e não gostou. Os lábios juntos, num fino contorno de desaprovação. Os olhos marejados. O corpo inteiro envergado, envergonhado.
No mínimo pensava assim: “O que diabos há de errado comigo?” Ou chorava internamente o azedume da boca. A gente sabe que é assim.
Ele citou um verso. Um trecho desconhecido de poesia infantil. Dizia: “Esse é o mal do ser apaixonado. Por amar acaba acreditando ser amado...”
O resto? Não me lembro. Não forço a sensação. Quando um amor começa, encanta aos olhos dos passantes. A harmonia nos dias do novo casal transparece em cada sorriso, cada mínimo gesto. Mas o fim desagrada a todos, como que na morte de uma esperança qualquer.
Ele recitava versos, ela despendia vociferações. Um se acalmava, aliviado, num suspiro digno de maestria. O outro se amordaçava para não disparar mordidas e feridas.
Uma cena de televisão. Um jovem amor que findava como a efêmera juventude de ambos.
Ele soltou a moça. Beijou sua testa, única parte ainda à altura de seu rosto. Quem saberia dizer se, de rosto levantado, a menina não receberia um último beijo na boca? Mas encolhia-se em sua pequenez de moça. Ele suspirou mais uma vez, levantou-se e partiu do ônibus na parada seguinte. Ela ficou.
Assisti a tudo com os ouvidos. Permiti-me uma olhada ou outra para entender a situação, mesmo sabendo que nunca tomaria ciência do porque daquele fim. Ele não a amava, e isto bastou para mim.
A menina não olhou para trás. Era árvore nascida torta, incapaz de se mover em qualquer direção. O ônibus partiu, e ela continuava sem se mexer. Lembro que tive vontade de sentar ao seu lado e dizer: “Ele deu a ti uma olhada final”. Mas não o fiz, por saber que não se tratava de negócios meus. E não era momento para ela se entregar a possibilidades.
Ela se pertencia, novamente. E levaria tempo para que se reconstruísse, talvez mais forte, mais feliz quem sabe.
A mim cabia assistir, e só. Um minuto de atenção ao cotidiano. Um olhar sobre o invisível, que já basta. Ela não precisava saber, mas tinha uma torcida pela sua futura felicidade.


Felipe... "E se voltar desejos, ou se eles foram mesmo, lembre da nossa música..."

Um comentário:

  1. Uau!!!! Quanto talento!

    Adorei o texto, me emocionei com ele. Afinal, quem nunca passou por uma perda semelhante não é?

    Por favor me convide pro lançamento de seu possível livro pra que eu ganhe um autógrafo =)

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