28 de julho de 2011

A sutileza do Ator.

          As vezes me pego dedilhando os sentimentos. Como naqueles maravilhosos momentos em que, ao se degustar uma comida deliciosa, nós utilizamos concentração para tentar decifrar os ingredientes que a compõe. Fica no céu da boca o gosto marcante do orégano, ou no fundo da garganta a ardência de uma boa pimenta. Até mesmo o inconfundível sabor do açúcar, doce e pegajoso, a se prender na língua quase inteira.
Sentimentos são assim também. Deixam rastros pelo nosso corpo. Vão crescendo conforme a emoção os desprende de onde ficam guardados, até darem consciência de sua existência ao nosso cérebro.
Teimo em dizer que essas tais emoções tem lugar próprio de habitação no nosso corpo. O ódio, por exemplo, faz brigada no estômago. E a raiva, por sua vez, tem moradia no olhar. O amor, nem preciso falar, vem do peito, lá do fundo. E a alegria deliciosamente se dispõe entre os dentes. Cada um dos nossos sentimentos abriga nosso corpo, e mantém contato direto com nossa pele.
Mas o que mais me emociona é a sutileza com a qual nossos sentimentos são despertados. Todos eles, quando em sua forma mais verdadeira, têm uma essência espontânea, natural dos sentimentos. Ninguém obriga a melancolia a afogar nossa respiração, nem tampouco impera sobre saudade que pesa nos ombros. Mas existe um tipo de indivíduo que passa a vida a desvendar o palácio das emoções. Esses são os atores.
Vez ou outra eu me deparo com atores, nessa minha função de escrever coisas tão aleatórias. Conheço vários deles, seja pessoalmente ou nos palcos. Pela televisão, ou cinema, ou qualquer outra forma. Atores são seres que descobriram a origem dos sentimentos. Estudam o corpo. Vão habilmente controlando os próprios sentimentos. Testemunham cada gesto para desvendar a reação em cadeia que aquilo pode causar. São conhecedores natos da Teoria do Caos. Um caos interno, que vivenciamos dia a dia.
Preciso dizer que nem sempre funciona assim. Leva tempo para revelar de onde vêm as emoções. Eu mesmo as sinto constantemente, e nem por isso conheço suas razões. Os sentimentos em si não nascem de explosões. Como disse, são pequenos golpes a tontear o corpo inteiro antes que se tornem visíveis aos olhos.
          Quando me deparo com um ator capaz de transfigurar um olhar vazio em um poço de anseios, sinto uma emoção forte tomar conta de mim. Por vezes chego a chorar, quando sinto vontade de chorar. Ou rir, quando assim nasce a alegria em mim. E nem sempre os motivos que fazem um indivíduo se emocionar são os mesmos para todos, por isso é tão difícil descrever uma emoção.
É algo de detalhes. De sutileza. Por isso tenho a certeza de que os grandes atores são os mais sutis. São capazes de criar um sentimento na moradia deles em nosso corpo. Mansamente, depositam uma semente sem que tenhamos ciência disso, e depois a regam com palavras e gestos. Quando menos se espera, o grão cresceu e tomou forma. E então somos capazes de sentir verdadeiramente, mesmo se o ator não sinta.

Um comentário: